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domingo, 13 de setembro de 2026

Jogos de tabuleiros africanos: uma intervenção mental para idosos

O Poder dos Jogos de Tabuleiro Africanos na Saúde Mental dos Idosos: O que um Relato Real nos Ensina
Na cidade de São Paulo, a população com mais de 60 anos já supera a marca de 2 milhões de pessoas, conforme apontam os dados mais recentes do Censo divulgados pela Prefeitura de São Paulo. Embora o envelhecimento ativo seja o objetivo de todos, os desafios ligados à saúde mental na terceira idade demandam atenção urgente.
Segundo dados do inquérito de base populacional ISA-Capital, os transtornos mentais e o isolamento social são fatos reais nas cidades. O estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento), apoiado pela FAPESP, revela um dado alarmante: mais de 290 mil idosos moram sozinhos na capital. Desse total, milhares enfrentam uma rotina de completa solidão, o que funciona como um dos principais gatilhos para a depressão, uma condição que, muitas vezes, caminha de forma silenciosa, sem que o idoso consiga ou queira relatar o que sente.
É nesse cenário que as intervenções lúdicas e culturais ganham um papel terapêutico essencial. Uma pesquisa realizada pela EACH-USP comprovou que a vivência prática com jogos de tabuleiro melhora expressivamente a qualidade de vida e reduz os sintomas depressivos em idosos. Quando olhamos para os jogos de tabuleiro africanos, como a Mancala, o benefício é ainda mais profundo: eles unem o estímulo de raciocínio, a redução do estresse e, acima de tudo, o resgate da socialização.
Um olhar atencioso que muda vidas: Um relato real
Recentemente, nossa equipe realizou uma oficina de jogos de tabuleiro africanos em um espaço cultural de São Paulo. Mais do que ensinar regras, nosso papel nesses encontros é praticar o acolhimento. Durante a atividade, uma senhora que estava sentada sozinha na área de convivência foi calorosamente convidada para participar. Os oficineiros, de forma prestativa, guiaram o aprendizado sem pressa, mostrando que a complexidade do jogo jamais seria uma barreira, pois o foco ali era o afeto e a troca.
Dias depois, recebemos uma mensagem emocionante dessa participante. O relato reforça a importância das intervenções de estímulo cognitivo e mental e como o jogo atua no limite entre o silêncio e a busca por ajuda:
"Confesso que fiquei muito apaixonada pelo seu trabalho... Agradeço de coração por tudo e pela atenção de vocês, que foram extremamente importantes para mim... Graças a esse momento de jogo, acredito que estou começando uma nova fase de vida. Notei o meu esquecimento, fiquei confusa com as cores e não conseguia segurar as bolinhas do jogo. O pior é que eu não conseguia parar de chorar e pensar no que aconteceu comigo... E vi que preciso procurar me cuidar. Graças a Deus eu acei o convite para jogar, pois só assim eu descobri o que está acontecendo comigo. Vou procurar ajuda para não agravar a situação. Agradeço de coração por vocês dois que me deram a oportunidade de conhecer a minha nova descoberta de uma vez por todas. Acredito que você sabe o nome, no momento não me vem à cabeça, mas sei que eu preciso procurar ajuda médica urgente. Deus abençoe e proteja sempre vocês..."
A Ciência da Enfermagem unida ao Cuidado Ancestral
Embora ela estivesse acompanhada e amparada pelos demais oficineiros, a minha formação e o meu olhar como enfermeira me deram uma percepção clínica diferenciada naquele momento. Enquanto ela tentava jogar, meu olhar técnico captou pequenos sinais biológicos e emocionais ocultos: a sutil dificuldade visual ao distinguir as cores, um leve tremor nas mãos e a perda de destreza motora fina ao tentar segurar as peças e bolinhas do jogo. Na enfermagem, aprendemos que o cuidar vai muito além de tratar patologias; ele mora na sensibilidade científica de enxergar o que o outro não consegue verbalizar.
Aquela vulnerabilidade física e emocional me tocou profundamente como profissional da saúde, e foi essa percepção que me motivou a escrever este texto. Precisamos falar abertamente sobre isso para que as pessoas, em suas práticas profissionais ou dentro de suas próprias casas, não invisibilizem os idosos e saibam interpretar os seus sinais silenciosos de socorro.
Esse resgate e acolhimento conversam diretamente com a própria essência das ferramentas que utilizamos. Embora nossa marca carregue o símbolo Adinkra de Sankofa — que nos ensina a olhar para o passado para ressignificar o presente —, essa vivência evocou perfeitamente outro conceito filosófico africano: o Adinkra PAMPASO, que simboliza a vigilância, a proteção e o cuidado mútuo dentro de uma comunidade. Na cosmovisão africana, a pessoa idosa não é um peso, mas sim uma biblioteca viva, um pilar que guarda a memória e a sabedoria de seu povo. Cuidar de um idoso é salvaguardar a própria comunidade. Os jogos tradicionais africanos nascem impregnados dessa filosofia: eles não existem para isolar ou competir destrutivamente, mas para semear a partilha e o pertencimento.
A importância de olhar para quem muitas vezes fica invisível
Diante do impacto desse feedback, nossa equipe optou por compartilhar esse relato (mantendo o total anonimato da participante) com a instituição contratante do espaço cultural. O objetivo foi demonstrar o valor inestimável que os espaços públicos e comunitários possuem na rede de proteção ao idoso.
Quando empresas, gestores de espaços culturais e profissionais se unem com um olhar verdadeiramente atento e humanizado, os locais de convivência deixam de ser apenas metros quadrados de passagem e se transformam em pontos de salvamento emocional. Olhar para o idoso, decifrar seus tremores e esquecimentos com afeto, e oferecer estímulos mentais através da cultura africana não é apenas entretenimento — é saúde pública, cuidado ancestral e dignidade.
Venha vivenciar esse cuidado de perto!
Acreditamos que o conhecimento transforma, mas a vivência cura. Nossas oficinas de jogos de tabuleiro africanos são projetadas sob a ótica da ciência do cuidar da enfermagem e guiadas pelo respeito profundo à ancestralidade e à filosofia africana de comunidade.
Nesses espaços, o jogo é apenas o ponto de partida. O verdadeiro objetivo é rir, interagir, exercitar a mente e criar laços seguros de pertencimento para que nenhum idoso se sinta invisível.
  • Você tem um idoso na família e quer proporcionar a ele esse momento de afeto e estímulo?
  • É gestor de um espaço cultural, empresa, UBS ou instituição e deseja levar essa vivência para o seu público?
Entre em contato conosco.
Referências Bibliográficas
  1. Prefeitura de São Paulo. Dados de Licenciamento Urbanístico e Censo Demográfico. Disponível em: Prefeitura de SP.
  2. Estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento) / FAPESP. Pesquisa sobre idosos residentes no município de São Paulo. Biblioteca Jurídica do Estado de São Paulo. Disponível em: Biblioteca Jurídica SP.
  3. EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP). Efeitos de jogos de mesa e cartas na qualidade de vida da terceira idade. Divulgação via Revista Veja São Paulo. Disponível em: Veja São Paulo.
  4. Agência FAPESP. Síndrome da Fragilidade em idosos na capital paulista. Estudo de base populacional. Disponível em: Agência FAPESP.

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Este artigo foi escrito de forma independente por Erika Angelo. Se esta pesquisa gerou valor para você, considere apoiar o meu trabalho com um Pix de qualquer valor para que eu continue estudando e escrevendo.

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